A voz da mudança | Jardin.

Inspirações

19 fevereiro 2017

Helena Branquinho

Helena Branquinho​ ​é nossa colunista convidada. Uma portuguesa radicada em Belo Horizonte, que dividirá sua paixão - ​a ​moda - conosco, através de um olhar transatlântico e textos com delicioso sotaque português. Você pode conhece-la melhor em seu blog www.helenabranquinho.com e também no instagram. @helenabranquinho.

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A voz da mudança

Sim! Feliz ou infelizmente a moda é mais cultural do que às vezes nos lembramos e, para o bem ou para o mal, influencia e é influenciada pelos seres humanos que somos: com caprichos, desejos, (pre)conceitos, vontades e necessidades.

Precisamos sonhar, pertencer a um grupo, passar uma imagem profissional, nos sentir bem na nossa pele… precisamos comunicar, rir, amar, chorar por vezes… ser fúteis e sérios. Às vezes alternando, outras em simultâneo! Para tudo isso a moda serve, sobre tudo isso a moda fala. Tudo isso a moda “sente” e torna visível!

A moda acompanhou os hippies nas suas ideias de liberdade e revolução; participou da emancipação da mulher estando lado-a-lado na queima dos sutiãs, nos vestidos livres de Coco Chanel, e na ousadia de Mary Quant com as suas mini saias. A moda fala: provavelmente não mais hoje do que ontem! A história da humanidade nos mostra que o ontem nos parece ser sempre errado, o hoje é duvidoso, mas que do futuro temos a certeza de que tudo será bom! Tudo é melhor no futuro! Porque no futuro está a resposta a todas as incertezas. Porque o futuro está por vir: mata a saturação do que hoje já conhecemos e traz a esperança de que com os erros acertaremos… no futuro!

Talvez por isso, antecipamos seis meses as roupas que vamos querer usar um dia, quando — na verdade — ao conhecê-las, queremos usá-las no já, no agora. Enquanto o quê já temos se torna, de repente, maçador e ultrapassado. É… Temos uma certa urgência de antecipar o futuro, porque talvez o futuro seja o nosso lugar seguro… a nossa calma, a nossa paz. E é pelo futuro que corremos do presente. Todos os dias. Ontem, hoje e amanhã.

 

Quem tem o poder de mudança na moda?

No hoje, veio a Vetements. A Vetements e o seu último desfile que materializou e consagrou o conceito street ao seu alto nível. O Centre Pompidou foi palco de um verdadeiro desfile de ruas: pessoas reais de várias faixas etárias e estilos (não, os modelos profissionais não são bonecos inventados, mas criou-se essa ideia de fantasia para nos lembrar que não temos que ser todos iguais e estereotipados). Pessoas que descem escadas rolantes no seu dia a dia. Pessoas que apertam mal o cinto na pressa de sair de casa, que vestem roupa sobre roupa só porque está frio. Veio a Vetements que gritou liberdade numa voz que comunga com um estado de espírito atual: respeito pelas diferenças, moderação na criação de imagens utópicas e pré-definidas, e um certo amor a nossa realidade quotidiana. Porque, se por um lado precisamos sonhar, por outro, precisamos nos sentir felizes com a vida que temos.

mudança na moda

 

mudança na moda

 

mudança na moda

Desfile Vetements, fall/winter 2017 – via Vogue.

 

A Vetements não foi a primeira, mas ela tem um certo poder de comunicar…

Na verdade, já houve uma primeira capa com uma modelo negra. Uma primeira capa sem uma modelo. Uma capa com espelho em que a modelo somos nós mesmas. Uma primeira capa com uma celebridade, uma primeira capa com blogueira… Já houve uma primeira capa com frases que defendem a mulher e os seus direitos. Já houve uma primeira capa sem e com Photoshop. Já houve uma primeira capa com foto. A primeira capa com mulheres desnudadas, provocantes e sensuais. A primeira capa com uma mulher a rir descontraída, sem pose séria. Já houve uma primeira… e todas essas primeiras ousaram chegar porque alguém pediu – nós!

mudança na moda

Capa da Vogue em 1892

 

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Donyale Luna, primeira negra numa capa da Vogue, em 1966.

 

mudança na moda

Capa Elle – maio de 2015

 

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Capa Elle – maio de 2015

 

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Capa Elle – dezembro de 2015

 

Só quero dizer que se houve mulheres de silhueta perfeita, de pele sem marcas, devidamente bronzeadas, e com as medidas padrão, em capas de revista e em cima de passerelles, ou nos anúncios publicitários, fomos nós que as colocamos. Somos pessoas ativas sobre tudo o que se passa à nossa volta. E se essa imagem já não nos satisfaz, porque somos seres insatisfeitos por natureza, que a perfeição é inatingível e nos leva à frustração… a culpa não é dos outros.

Não há por isso como condenar o passado. Ele faz parte das pessoas que fomos e somos. A sociedade que fomos e somos. Agora, caminhamos para onde queremos ir…

Porque as mudanças acontecem quando queremos e estamos preparados para elas. Aqui e agora! E quem dita as regras somos nós. Se há no ar uma voz de mudança na moda (e em tudo mais)… é a nossa!

 

Helena Branquinho

www.helenabranquinho.com